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	<title>o poder da cultura</title>
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		<title>Cultura é Poder</title>
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		<pubDate>Thu, 26 Jan 2012 22:51:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Leonardo Brant</dc:creator>
				<category><![CDATA[1. Cultura é poder]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[domínio]]></category>

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O que é Cultura? Qual a sua função pública? Existe uma relação direta  entre cultura e desenvolvimento? Podemos pensar em sustentabilidade sem  considerar a questão cultural? Pra que serve uma política cultural?  Qual a sua relação com o mercado? Como o poder público pode intervir na  dinâmica cultural de uma sociedade? [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-29" title="o poder da cultura" src="http://opoderdacultura.com.br/wp-content/uploads/2009/10/RZ1.jpg" alt="o poder da cultura" width="580" height="380" /></p>
<p>O que é Cultura? Qual a sua função pública? Existe uma relação direta  entre cultura e desenvolvimento? Podemos pensar em sustentabilidade sem  considerar a questão cultural? Pra que serve uma política cultural?  Qual a sua relação com o mercado? Como o poder público pode intervir na  dinâmica cultural de uma sociedade? Como o artista e o agente cultural  enfrentam os desafios da pós-modernidade?</p>
<p>Entre as muitas respostas possíveis para essas questões, optei por  buscar uma abordagem propositiva, que buscasse imaginar uma nova  percepção da riqueza e importância da cultura como projeto humanista,  que abarcasse também a sua dimensão individual, política e  organizacional. Um ponto de partida para um projeto de nação, para o  desenvolvimento social, para as oportunidades econômicas, mercados  potentes, empresas inovadoras, brasileiros capazes, competentes e  livres.</p>
<p>A intenção é apresentar cultura como domínio, como campo de  apropriação, pública ou privada, e seu manejo pelos diversos agentes  sociais ao longo do nosso processo civilizatório.</p>
<p>A ideia de cultura, sempre moldada conforme as visões políticas de  cada tempo, detém em si as chaves dos sistemas de poder. Chaves que  podem abrir portas para a liberdade, para a equidade e para o diálogo.  Mas também podem fechá-las, cedendo ao controle, à discriminação e à  intolerância.</p>
<p>Da mesma forma que o poeta T.S.Eliot inter-relacionava cultura sob a  ótica do indivíduo, de um grupo e de toda a sociedade, precisamos  compreender cultura como um plasma invisível entrelaçado entre as  dinâmicas sociais, ora como alimento da alma individual, ora como  elemento gregário e político, que liga e significa as relações humanas.  Perceber a presença desse plasma – ou seja, de uma matéria cultural  altamente energizada, reativa e que permeia todo o espaço da sociedade –  é fundamental para a compreensão dos fenômenos do nosso tempo.</p>
<p>Cultura é algo complexo. Não se limita a uma perspectiva artística,  econômica ou social. É a conjugação de todos esses vetores. Daí a sua  importância como projeto de Estado e sua pertinência como investimento  privado. Uma política cultural abrangente, contemporânea e democrática  deve estar atenta às suas várias implicações e dimensões.</p>
<p>A UNESCO, organismo das Nações Unidas destinada a questões de  educação cultura e ciências, define cultura como “um conjunto de  características distintas espirituais, materiais, intelectuais e  afetivas que caracterizam uma sociedade ou um grupo social”. Esse  entendimento abarca, além das artes e das letras, os modos de vida, os  sistemas de valores, as tradições e as crenças.</p>
<p>Sob a luz do conceito de cultura da entidade não seria absurdo  classificar um filme publicitário ou merchandising como uma ação  cultural. Não se trata do investimento no potencial criador do  cidadão/consumidor, mas num determinado conjunto de comportamentos  necessários a reforçar a ideia de incentivar ou potencializar  determinação ação (consumo).</p>
<p>A empresa age para seduzir, ou até mesmo impor, por meio de ação  sistemática e repetida, sua “cultura”, seus valores e códigos. Ou seja,  para consumir determinada marca de cigarro, automóvel, ou calça jeans, é  preciso praticar, ou ao menos identificar-se, com determinados padrões  de conduta.</p>
<p>Levado às últimas consequências, esse sistema traduz-se num processo de  aculturação, baseado na necessidade de destituir o sujeito de valores,  referências e capacidades culturais intrínsecas, em busca de adesão a  algo mais dinâmico, sedutor e com função gregária: o consumo.</p>
<p>A jornalista canadense Naomi Klein aponta em seu livro-manifesto Sem  Logo (2002) os riscos dessa associação. Ela apresenta o branding  (mecanismos empresariais para criar a desenvolver marcas) como um  processo cultural. A autora afirma que as marcas não são produtos,  contudo, são responsáveis pela criação de conceitos, atitudes, valores e  experiências. Portanto, “por que também não podem ser cultura?” Esse  projeto tem sido tão bem sucedido que “os limites, entre os  patrocinadores corporativos e a cultura patrocinada, desapareceram  completamente”, questiona.</p>
<p>Segundo Klein (2002), embora “nem sempre seja a intenção original, o  efeito do branding avançado é empurrar a cultura que a hospeda para o  fundo do palco e fazer da marca a estrela. Isso não é patrocinar  cultura, é ser cultura”.</p>
<p>A serviço das instâncias de poder, sustentadas entre si, como nos dias  de hoje, atuam os sistemas financeiro, governamental e de mídia. A arte  assume uma preocupante função apaziguadora e definidora dos modos de  vida e costumes. Joost Smiers, em Artes sob Pressão (2003), pergunta  “onde os conglomerados culturais podem espalhar suas idéias sobre o que  deve ser a arte, a questão crucial é: as histórias de quem estão sendo  contadas? Por quem? Como são produzidas, disseminadas e recebidas?”</p>
<p>Para Smiers (2003), as obras de arte tornaram-se veículos com  mensagens comerciais e “têm a função de criar um ambiente no qual a  produção do desejo possa acontecer. Esse contexto é freqüentemente cheio  de violência”, diz.</p>
<p>A indústria audiovisual e seu extremo poder de alcance, das salas de  cinema aos lares de todo o planeta, por meio de DVDs, games e websites  interativos, é o melhor exemplo disso, como aponta o Relatório do  Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), de 2004,  intitulado Liberdade Cultural num mundo diversificado. De acordo com o  documento, o comércio mundial de bens culturais – cinema, fotografia,  rádio e televisão, material impresso, literatura, música e artes visuais  – quadruplicou, passando de 95 bilhões de dólares norte-americanos em  1980 para mais de 380 bilhões em 1998. Cerca de quatro quintos desses  fluxos têm origem em 13 países.</p>
<p>Segundo o relatório, Hollywood atinge 2,6 bilhões de pessoas e  Bollywood (indústria de cinema indiano) cerca de 3,6 bilhões. O domínio  de Hollywood é apenas um dos aspectos da disseminação ocidental de  consumo. “Novas tecnologias das comunicações por satélite deram lugar,  na década de 1980, a um novo e poderoso meio de comunicação de alcance  mundial e a redes mundiais de meios de comunicação como a CNN”. O número  de aparelhos de televisão por mil habitantes mais do que duplicou em  todo o mundo, passando de 113, em 1980, para 229, em 1995. Desde então,  aumentou para 243.</p>
<p>O resultado disso é a criação de um padrão de consumo global, com  “adolescentes mundiais” compartilhando uma “única cultura pop mundial,  absorvendo os mesmos vídeos e a mesma música e proporcionando um mercado  enorme para tênis, t-shirts e jeans de marca”, afirma o relatório.</p>
<p>Edgar Morin, em “Cultura e Barbárie Européias”, empresta de Teilhard  de Chardin o termo “noosfera”, para designar o mundo das ideias, dos  espíritos, dos deuses produzidos pelos seres humanos dentro de sua  cultura. “Mesmo sendo produzidos pelo espírito humano, os deuses  adquirem uma vida própria e o poder de dominar os espíritos”. Dessa  forma, diz o filósofo, “a barbárie humana engendra deuses cruéis, que,  por sua vez, incitam os seres humanos à barbárie. Nós modelamos os  deuses que nos modelam”.</p>
<p>Max Weber costumava dizer que o homem está preso a uma teia de  significados que ele mesmo criou. Nesse sentido, assim como Geertz  (1973), também podemos considerar cultura como um conjunto de mecanismos  de controle para governar comportamentos. E a história recente exibe  vários alertas de como as indústrias culturais e os meios de comunicação  de massa podem ser grandes armas disponíveis para acomodar e disseminar  determinados comportamentos. Assim fizeram o nazismo, o fascismo, o  comunismo e as ditaduras militares, sobretudo as latino-americanas, nos  exemplos extremos.</p>
<p>Esse rastro está cada vez mais presente nas sociedades orientadas  para o consumo. Em comum, a ausência do Estado em sua responsabilidade  com a cultura e a diversidade; e o domínio marcante das indústrias  culturais como ponta-de-lança para uma economia global centrada nas  grandes corporações.</p>
<p>A realidade desse cenário precisa ser encarada por toda a sociedade  brasileira, que usufrui os benefícios dessa globalização econômica, mas  ao mesmo tempo se expõe de maneira preocupante aos seus efeitos  colaterais. O país corre risco de virar as costas ao seu grande  potencial da produção cultural e sua vocação para o desenvolvimento de  um poderoso mercado formado pelas próprias manifestações culturais.</p>
<p>Cultura, nesse caso, funciona como uma chave capaz de trancar o  indivíduo em torno de códigos e simbologias controladas: pelo Estado,  por uma religião ou mesmo por corporações e através dos instrumentos  gerados pela sociedade de consumo, como a publicidade, a promoção e o  patrocínio cultural.</p>
<p>Mas essa mesma chave, que oprime o ser humano e desfaz sua  subjetividade, tem o poder de abrir as portas, permitindo ao indivíduo  compreender a si e aos fenômenos da sociedade e do seu próprio estágio  civilizatório, em busca da liberdade. Para isso, basta girá-la para o  lado oposto.</p>
<p>Em Dialética da Colonização (1992), Alfredo Bosi define cultura como o  &#8220;conjunto das práticas, das técnicas, dos símbolos e dos valores que se  devem transmitir às novas gerações para garantir a reprodução de um  estado de coexistência social”. E supõe uma “consciência grupal operosa e  operante que desentranha da vida presente os planos para o futuro”.</p>
<p>A cultura cumpre nesse caso uma função pouco reconhecida e estimulada  nesses tempos: transformar realidades sociais e contribuir para o  desenvolvimento humano em todos os seus aspectos. Algo que identifica o  indivíduo em seu espaço, lugar, época, tornando-o capaz de sociabilizar e  formar espírito crítico.</p>
<p><strong>Origens e dimensões da palavra Cultura</strong></p>
<p>Raymond Williams, autor de Palavras-chave (2007), considera a palavra  culture como uma das duas ou três mais complicadas da língua inglesa,  devido ao seu complexo percurso etimológico.</p>
<p>Em sua acepção mais longínqua, a matriz latina colere trazia o  significado de cultivar, habitar, proteger e honrar com veneração. Desse  radical, podemos reconhecer pelo menos dois desdobramentos: colonus,  que traz a idéia de habitação e cultus, que nos remete a “cultivo ou  cuidado”, bem como seus significados medievais subsidiários: “honra,  adoração”, já “convergidos pela radicalização do temor divino e da moral  na sociedade – personificação do Senhor no feudo”. Mas também couture,  no francês antigo, por exemplo, associados à “lavoura, cuidado com o  crescimento natural”.</p>
<p>Dos séculos XVI ao XVII, segundo Williams, o termo passou a  significar, por analogia, o cuidado com o desenvolvimento humano e o  cultivo das mentes, deixando de se tratar apenas da terra e dos animais.  Desde já destacando uma distinção arbitrária entre os que têm cultura  dos que não têm, o termo assume o caráter de civilidade. Com a expansão  da Europa e seu conseqüente processo de dominação política e econômica, o  poder de distinção entre o culto e o não-culto foi de grande valia para  implementar e manter o colonialismo.</p>
<p>A partir dos séculos XVIII e XIX, o conceito passa a ser utilizado  para designar o próprio estágio civilizatório da humanidade. Johann  Gottfried von Herder escreveu Sobre a filosofia da história para a  educação da humanidade (1784-91): “Nada é mais indeterminado que essa  palavra e nada mais enganoso que sua aplicação a todas as nações e a  todos os períodos”. Argumentava que era necessário grifar culturas, no  plural, pois elas são específicas e variáveis em diferentes nações e  períodos, tanto quanto em relação a grupo sociais e econômicos dentro de  uma nação.</p>
<p>Para Williams, podemos reconhecer três categorias amplas e ativas de  uso do termo: o processo de desenvolvimento intelectual, espiritual e  estético; a referência a um povo, um período, um grupo ou da humanidade  em geral; as obras e as práticas da atividade intelectual,  particularmente a artística, sendo este último o seu sentido mais  difundido: “cultura é música, literatura, pintura, escultura, teatro e  cinema”.</p>
<p>Já o pensador Edgar Morin atribui três dimensões interdependentes à  palavra cultura: a antropológica, ou “tudo aquilo que é construído  socialmente e que os indivíduos aprendem”; a social e histórica, que  pode ser entendida como o “conjunto de hábitos, costumes, crenças,  idéias, valores, mitos que se perpetuam de geração em geração” e a  relacionada às humanidades, que “abrange as artes, as letras e a  filosofia”.</p>
<p>Para Terry Eagleton, no indispensável A ideia de cultura (2002), as  palavras civilização e cultura continuam até hoje a intercambiar-se em  seu uso e significado, sobretudo por antropólogos: “cultura é agora  também quase o oposto de civilidade”. Eagleton (2002) considera curioso  que o termo hoje se aplique mais à compreensão de formas de vida  “selvagens” do que para civilizados. “Mas se ‘cultura’ pode descrever  uma ordem social ‘primitiva’, também pode fornecer a alguém um modo de  idealizar a sua própria.</p>
<p>Tanto para definir algo de domínio próprio de um indivíduo (o  conhecimento adquirido) quanto para o exercício de poder em relação a  grupos sociais distintos (o culto e o não culto, o civilizado e o não  civilizado), o termo é utilizado até hoje como definidor de um campo  simbólico determinado, quase sempre para distinguir ou identificar.</p>
<p>Ações e políticas culturais, constituídas nos campos público e  privado, exercem, inevitavelmente, esse domínio. Como provedor de acesso  a conteúdos, processos e dinâmicas, aguça o espírito crítico e permite a  apropriação, o empoderamento e o protagonismo do cidadão.</p>
<p>Por outro lado, a cultura adquire, cada vez mais, sua corporificação  como ente econômico e instrumento de lazer e entretenimento. Manuseadas  por sociedades contaminadas por um modo de pensar linear e cartesiano,  condicionadas a analisar todos os fenômenos por uma correlação de  causa-efeito, deixa de ser essa matéria que significa e transforma as  relações, para ser mera atividade econômica, estratégica por sua grande  capacidade de gerar recursos, postos de trabalho e economia de escala,  por meio de exploração de propriedade intelectual.</p>
<p>Uma fórmula que exige difusão em massa para ser economicamente  eficaz. E conteúdos de fácil assimilação, para ampliar sua capacidade de  inserção mercadológica. Essa fórmula geralmente exclui diálogos mais  profundos e complexos, desconectando-se de suas raízes culturais e das  dinâmicas locais. Com formatos cada vez mais repetitivos e  pasteurizados, são mais afeitas a uma cultura homogênea, linear,  uníssona, voltada ao consumo.</p>
<p>A falta de dispositivos claros e efetivos para lidar com esse campo  simbólico configura-se como uma das mais graves doenças das sociedades  contemporâneas.</p>
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		<title>Diversidade Cultural</title>
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		<pubDate>Tue, 22 Jun 2010 00:12:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Leonardo Brant</dc:creator>
				<category><![CDATA[2. O poder da sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[audiovisual]]></category>
		<category><![CDATA[convenção]]></category>
		<category><![CDATA[diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[globalização]]></category>
		<category><![CDATA[unesco]]></category>

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		<description><![CDATA[A recém-promulgada Convenção sobre a proteção e a promoção da  diversidade das expressões culturais no âmbito da UNESCO é a  consolidação de uma luta histórica contra a homogeneização cultural  promovida por um oligopólio formado por estúdios de Hollywood e seus  grupos empresariais, que reúnem conglomerados de mídia e fabricantes de  [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A recém-promulgada Convenção sobre a proteção e a promoção da  diversidade das expressões culturais no âmbito da UNESCO é a  consolidação de uma luta histórica contra a homogeneização cultural  promovida por um oligopólio formado por estúdios de Hollywood e seus  grupos empresariais, que reúnem conglomerados de mídia e fabricantes de  equipamentos eletrônicos. <img title="Mais..." src="http://www.culturaemercado.com.br/wp-includes/js/tinymce/plugins/wordpress/img/trans.gif" alt="" /> <span id="more-270"></span></p>
<p>Financiados por outros cartéis, como a indústria financeira,  tabagista e alcooleira, essa cultura de consumo favorece setores,  sobretudo o mercado do luxo e da celebridade.</p>
<p>Encampado por organizações socioculturais, produtores independentes  organizados em coalizões e redes por todo mundo, o movimento encontrou  abrigo em países como a França, Canadá, Suécia e Brasil, que sentem os  efeitos do estrangulamento cada vez mais visível de suas culturas  locais, com o domínio dos meios de comunicação e difusão cultural nas  mãos desses conglomerados multinacionais.</p>
<p>A Convenção consolida outras pautas urgentes das sociedades  contemporâneas, como a cultura de paz e o respeito das diferenças  culturais, a sobrevivência das culturas autóctones, suas formas de vida,  fazeres, economias e línguas, em oposição a um projeto global único,  que pretende incluir todos os habitantes economicamente ativos do  planeta, com metas de crescimento cada vez mais elevadas.</p>
<p>Nesse cenário, torna-se urgente a composição de um cenário positivo e  fértil para tratar do assunto, como uma das grandes pautas sociais do  novo milênio, oferecendo subsídios concretos para apropriação de um  glossário fundamental para a construção e consolidação de democracias  multiculturais.</p>
<p>Seu valor simbólico no âmbito da UNESCO pode ser medido pela votação  para a promulgação da Convenção, em 2005. Com 151 votos a favor e apenas  2 contra (Estados Unidos e Israel), associou-se de maneira definitiva  como peça de resistência ao imperialismo norte-americano e sua  irresponsabilidade bélica e midiática.</p>
<p>O documento passou a ser utilizado pelos diversos organismos e  segmentos em busca de maior equidade nas trocas internacionais, assim  como nos países-membros, que ratificaram a Convenção em sua legislação  interna. O Brasil o fez em dezembro de 2006.</p>
<p>Isso significa um compromisso do país com o estabelecimento de  políticas concretas de preservação e promoção da diversidade. Traduzido  para as políticas internas pelo então Ministro da Cultura, Gilberto Gil,  como do-in  antropológico, essas políticas visavam massagear as  dinâmicas culturais já existentes por todos os pontos de ressonância do  país.</p>
<p>Para efetivar uma plataforma pública, abrangente e democrática, é  preciso praticar o do-in antropológico, auto- massageando o corpo  cultural, celebrar a diversidade, promover o sincretismo, estimular a  auto-representação, valorizar as identidades, participar da Cidadania  Cultural e garantir os direitos culturais a todos os cidadãos.</p>
<p>Não podemos, no entanto, enxergar como uma receita fechada, mas  considerá-la uma sistematização prática de elementos emergentes da nossa  realidade cultural. Como um plano propositivo para visualizarmos novos  efeitos de mundo, baseados em resultados consistentes e processos  enriquecedores para a sociedade brasileira.</p>
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		<title>Investimento Cultural Privado</title>
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		<pubDate>Fri, 21 May 2010 17:29:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Leonardo Brant</dc:creator>
				<category><![CDATA[6. O poder da política]]></category>
		<category><![CDATA[4. O poder do mercado]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[financiamento]]></category>
		<category><![CDATA[mecenato]]></category>

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		<description><![CDATA[As corporações precisam criar novas perspectivas e dimensões capazes  de aprimorar seu relacionamento com a sociedade e com os mercados. A  cultura, a ética e a sustentabilidade precisam ser dissecadas muito além  das visões  departamentais e dos discursos prontos, porém vazios.  Investimentos em empreendimentos socioculturais e cidadania corporativa  devem ser [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>As corporações precisam criar novas perspectivas e dimensões capazes  de aprimorar seu relacionamento com a sociedade e com os mercados. A  cultura, a ética e a sustentabilidade precisam ser dissecadas muito além  das visões  departamentais e dos discursos prontos, porém vazios.  Investimentos em empreendimentos socioculturais e cidadania corporativa  devem ser entendidos como inteligências para a configuração de ações e  relações orgânicas, conscientes e efetivas com a sociedade. <span id="more-258"></span></p>
<p>Este estudo pretende formular uma terceira via, capaz de abarcar a  confluência de interesses público e privado numa sociedade cada vez mais  pautada pelo consumo e pela voracidade dos mercados. A proposta  apresentada não visa esconder ou dissimular os interesses privados das  empresas, tampouco minimiza as fragilidades da gestão pública da cultura  e da fragmentação da sociedade civil, alheia e distante dos processos  de participação e construção da nossa recém conquistada democracia.</p>
<p>A relação das empresas com a cultura não está restrita à maneira como  se desenvolve o seu mecenato empresarial. Deve incluir todas as  relações humanas num ambiente organizacional, as dinâmicas de  convivência com as  comunidades onde se faz presente e a  corresponsabilidade pelo desenvolvimento cultural da sociedade onde  desenvolve suas atividades mercantis.</p>
<p>A partir das considerações apresentadas, é possível propor uma série  de apontamentos em torno de práticas  empresariais. Desse modo, atuar em  cultura com responsabilidade pode significar:</p>
<ul>
<li>A preservação e a promoção da diversidade cultural a partir de  práticas culturais de cada indivíduo, grupo social ou território.</li>
<li>O respeito e a celebração das capacidades locais, desenvolvendo, a  partir do diálogo, mecanismos próprios para o aprimoramento dessas  práticas.</li>
<li>A valorização das ações culturais como forma de garantir a  autoestima e a capacidade de expressão de todos os  cidadãos.</li>
<li>A garantia do protagonismo das pessoas envolvidas no processo  cultural.</li>
<li>A busca do diálogo e associação das ações com as políticas públicas  existentes.</li>
</ul>
<p>A relação entre uma empresa e a ação cultural incentivada deve  extrapolar a mera busca de visibilidade. Nessa situação, os sistemas de  aferição quantitativos de audiência e exposição reforçam a falsa  sensação de que produtos culturais de alto valor educativo têm menor  valor comercial, pois seu apelo tende a ser reduzido.</p>
<p>A análise do objeto de investimento deve levar em conta fatores mais  abrangentes como:</p>
<ul>
<li>Riqueza e profundidade da pesquisa estética e de linguagem.</li>
<li>Qualidade e profundidade da experiência cultural.</li>
<li>Vínculo identitário em relação à memória e à formação cultural do  ambiente social onde está inserido.</li>
<li>Credibilidade dos agentes envolvidos.</li>
<li>Independência e liberdade de criação e expressão em relação às  instâncias de poder (governos, grupos empresariais, mídias  tradicionais).</li>
<li>Resíduo e capacidade de continuidade da ação a partir do  investimento.</li>
<li>Condição e capacidade de sustentabilidade da ação cultural.</li>
</ul>
<p>Precisamos reconhecer e valorizar a Cultura como elemento fundamental  para o desenvolvimento humano e social. Compreende o compromisso de  todo cidadão com todas as formas de vida como condição indispensável e  indissociável para a sua própria evolução. E trabalha pela construção de  um novo sentido público para a cultura, mais abrangente e  contemporâneo, capaz de lidar com a compreensão dos fenômenos e   contradições da pós-modernidade.</p>
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		<item>
		<title>Estado e Cultura: uma relação delicada</title>
		<link>http://opoderdacultura.com.br/2009/10/estado-e-cultura-uma-relacao-delicada/</link>
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		<pubDate>Mon, 19 Oct 2009 15:58:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Leonardo Brant</dc:creator>
				<category><![CDATA[3. O poder do estado]]></category>
		<category><![CDATA[2. O poder da sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[6. O poder da política]]></category>
		<category><![CDATA[brasil]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[governo]]></category>

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No Brasil, a relação entre Estado e Cultura pode ser identificada a partir de diversas intervenções elaboradas por órgãos governamentais em diferentes contextos sociais, políticos e econômicos. Mesmo sem uma intenção propriamente voltada para a construção e o exercício de uma cultura complexa e diversa, utilizam-se historicamente mecanismos “oficiais e oficiosos” como forma de estabelecer [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-113" title="culturatesteE" src="http://opoderdacultura.com.br/wp-content/uploads/2009/10/culturatesteE.jpg" alt="culturatesteE" width="580" height="361" /><br />
No Brasil, a relação entre Estado e Cultura pode ser identificada a partir de diversas intervenções elaboradas por órgãos governamentais em diferentes contextos sociais, políticos e econômicos. Mesmo sem uma intenção propriamente voltada para a construção e o exercício de uma cultura complexa e diversa, utilizam-se historicamente mecanismos “oficiais e oficiosos” como forma de estabelecer ou impor uma dinâmica cultural para a sociedade.</p>
<p>A partir do estágio evolutivo das políticas públicas é possível identificar e classificar os diversos tipos de relacionamentos do Estado com a cultura no Brasil. Para Marilena Chauí (1994)1, são quatro as principais modalidades:</p>
<p>- A liberal, que identifica cultura e belas-artes, estas últimas consideradas a partir da diferença clássica entre artes liberais e servis. Na qualidade de artes liberais, as belas-artes são vistas como privilégio de uma elite escolarizada e consumidora de produtos culturais.</p>
<p>- A do Estado autoritário, na qual o Estado se apresenta como produtor oficial de cultura e censor da produção cultural da sociedade civil.</p>
<p>- A populista, que manipula uma abstração genericamente denominada cultura popular, entendida como produção cultural do povo e identificada com o pequeno artesanato e o folclore, isto é, com a versão popular das belas-artes e da indústria cultural.</p>
<p>- A neoliberal, que identifica cultura e evento de massa, consagra todas as manifestações do narcisismo desenvolvidas pela mass media, e tende a privatizar as instituições públicas de cultura deixando-as sob a responsabilidade de empresários culturais.</p>
<p>Do lado dos produtores e agentes culturais, segundo Chauí “o modo tradicional de relação com os órgãos públicos<br />
de cultura é o clientelismo individual ou das corporações artísticas que encaram o Estado sob a perspectiva do grande balcão de subsídios e patrocínios financeiros”.</p>
<p>Para compreender melhor como essas dinâmicas foram estabelecidas, co-habitando o nosso sistema de governança pública, tentaremos pontuar épocas, contextos históricos e ações governamentais na área da cultura, sobretudo a partir da criação de organismos e instituições. Além de revelar os paradigmas e intencionalidades por trás das ações, buscaremos propor maneiras contemporâneas de lidar com esses importantes legados.</p>
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		<title>Uma abordagem multidimensional para a atividade cultural</title>
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		<pubDate>Sun, 18 Oct 2009 16:00:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Leonardo Brant</dc:creator>
				<category><![CDATA[4. O poder do mercado]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[economia]]></category>

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		<description><![CDATA[O reconhecimento da cultura como atividade econômica é muito recente. Até o início do século 20 a tratávamos apenas como patrimônio simbólico. Tanto nos estudos antropológicos quanto nos sociológicos, aprendemos a e enxergá-la como coisa dada, o que está impresso em nossos códigos de convivência e consolidamos como civilização.
Arrisco-me a explorar uma outra dimensão que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://opoderdacultura.com.br/wp-content/uploads/2009/10/culturatesteM.jpg" mce_src="http://opoderdacultura.com.br/wp-content/uploads/2009/10/culturatesteM.jpg" alt="culturatesteM" title="culturatesteM" class="alignnone size-full wp-image-119" width="580" height="361"><br />O reconhecimento da cultura como atividade econômica é muito recente. Até o início do século 20 a tratávamos apenas como patrimônio simbólico. Tanto nos estudos antropológicos quanto nos sociológicos, aprendemos a e enxergá-la como coisa dada, o que está impresso em nossos códigos de convivência e consolidamos como civilização.</p>
<p>Arrisco-me a explorar uma outra dimensão que a cultura pode assumir a partir de uma visão mais ampla e contemporânea deste conceito. Refiro-me às dinâmicas de sociabilidade, às tecnologias de convivência, ao diálogo, às conversações em redes. Sistemas de intercâmbio e interrelação reforçados pelo surgimento das novas tecnologias, mas não exclusivos aos territórios virtuais.</p>
<p>Imaginar e expressar o futuro. Pensar cultura como um farol voltado para as novas formas de expressão e convivência<br />
que podemos construir a partir do conhecimento disponível. A ética como princípio norteador. A consolidação da economia como ciência dominante em nosso tempo fez com que lhe subordinássemos todas as outras formas de manifestação humana como fenômenos derivativos, seguindo uma lógica e uma codificação próprias. E com a cultura não foi diferente.</p>
<p>E daí vem a tentação de transformar ricas manifestações culturais em commodities baratas, manuseadas de maneira rasteira e linear por profissionais reprodutores de um conjunto de regras e tecnologias que só interessam à manutenção de um perverso sistema de poder, que se sustenta sobretudo pelo domínio dos meios de produção e distribuição de conteúdos culturais.</p>
<p>Mas o que é a economia senão um fenômeno cultural? O que são o dinheiro, o market share, a pontuação da bolsa de valores, senão valores simbólicos desprovidos de sentido fora de um conjunto de códigos rigorosos chamado mercado”. Mergulhados nesse contexto, corremos o risco de perder a capacidade de desvendá-los e tornamo-nos apenas agentes de manutenção e disseminação de um sistema de valores linear, unilateral e desumano.</p>
<p>Nessa condição, o consumo consolida-se como a forma de expressão mais forte e presente, sobretudo nos grandes<br />
centros urbanos. A própria arte passa a ser ressignificada e vista como meio de produção e objeto de consumo. Corre, assim, o risco de perder a condição e a capacidade de revelar e traduzir a alma humana, suas contradições e riscos. De sua condição única e insubstituível de dar forma à utopia, passa a mera reprodutora de um sistema que o incapacita para o exercício desse olhar mais agudo e sensível.</p>
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		<title>Cultura e sustentabilidade</title>
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		<pubDate>Sat, 17 Oct 2009 00:37:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Leonardo Brant</dc:creator>
				<category><![CDATA[5. O poder das corporações]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[mecenato]]></category>
		<category><![CDATA[responsabilidade]]></category>
		<category><![CDATA[sustentabilidade]]></category>

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O reconhecimento da cultura como atividade econômica é muito recente. Até o início do século 20 a tratávamos apenas como patrimônio simbólico. Tanto nos estudos antropológicos quanto nos sociológicos, aprendemos a enxergá-la como coisa dada, o que está impresso em nossos códigos de convivência e consolidamos como civilização.
Arrisco-me a explorar uma outra dimensão que a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-126" title="culturatesteC" src="http://opoderdacultura.com.br/wp-content/uploads/2009/10/culturatesteC.jpg" alt="culturatesteC" width="580" height="361" /><br />
O reconhecimento da cultura como atividade econômica é muito recente. Até o início do século 20 a tratávamos apenas como patrimônio simbólico. Tanto nos estudos antropológicos quanto nos sociológicos, aprendemos a enxergá-la como coisa dada, o que está impresso em nossos códigos de convivência e consolidamos como civilização.</p>
<p>Arrisco-me a explorar uma outra dimensão que a cultura pode assumir a partir de uma visão mais ampla e contemporânea deste conceito. Refiro-me às dinâmicas de sociabilidade, às tecnologias de convivência, ao diálogo, às conversações e redes. Sistemas de intercâmbio e inter-relação reforçados pelo surgimento das novas tecnologias, mas não exclusivos aos territórios virtuais.</p>
<p>Imaginar e expressar o futuro. Pensar cultura como um farol voltado para as novas formas de expressão e convivência que podemos construir a partir do conhecimento disponível. A ética como princípio norteador.</p>
<p>A consolidação da economia como ciência dominante em nosso tempo fez com que lhe subordinássemos todas as outras formas de manifestação humana como fenômenos derivativos, seguindo uma lógica e uma codificação próprias. E com a cultura não foi diferente.</p>
<p>E daí vem a tentação de transformar ricas manifestações culturais em commodities baratos, manuseadas de maneira rasteira e linear por profissionais reprodutores de um conjunto de regras e tecnologias que só interessam à manutenção de um perverso sistema de poder, que se sustenta sobretudo pelo domínio dos meios de produção e distribuição de conteúdos culturais.</p>
<p>Mas o que é a economia senão um fenômeno cultural? O que são o dinheiro, o market share, a pontuação da bolsa de valores, senão valores simbólicos desprovidos de sentido fora de um conjunto de códigos rigorosos chamado “mercado”. Mergulhados nesse contexto, corremos o risco de perder a capacidade de desvendá-los e tornamo-nos apenas agentes de manutenção e disseminação de um sistema de valores linear, unilateral e, por que não, desumano.</p>
<p>Nessa condição, o consumo consolida-se como a forma de expressão mais forte e presente, sobretudo nos grandes centros urbanos. A própria arte passa a ser resignificada e vista como meio de produção e objeto de consumo. Corre, assim, o risco de perder a condição e a capacidade de revelar e traduzir a alma humana, suas contradições e riscos. De sua condição única e insubstituível de dar forma à utopia, passa a mera reprodutora de um sistema que o incapacita para o exercício desse olhar mais agudo e sensível.</p>
<p>O Brasil vivenciou na última década um grande salto quantitativo e qualitativo nas relações de trabalho na área cultural. Cultura, como atividade econômica, saiu do confinamento, ultrapassou fronteiras, mas ainda mantém vícios e dependências de uma atividade ligada aos poderes político e econômico.<br />
O país entrou de forma definitiva no cardápio do entretenimento global. Um dos principais mercados das chamadas majors do cinema e da indústria fonográfica, o país vivencia a efervescência de uma nova Broadway tupiniquim, que já demonstra sinais de vitalidade. Do ponto de vista da exportação das artes e da cultura local, o momento atual nunca foi tão profícuo. Desde Paulo Coelho, um dos autores mais lidos da atualidade, até o futebol e a música, o Brasil nunca esteve tão em voga no cenário global. O gestor cultural precisa estar atendo para valer-se dessas oportunidades.</p>
<p>Participar ativamente do mercado da cultura sem estar a ele subordinado é uma das questões éticas mais difíceis ligadas ao cotidiano do gestor cultural. Por isso a necessidade de investir em um conjunto de ferramentas adequadas para lidar com a administração e o marketing, por exemplo, mas não sem fazer uma incursão mais profunda na questão ética.</p>
<p>Sustentabilidade. O grande tema do novo milênio surge como um alerta promovido por ativistas e organismos internacionais para a escassez dos recursos naturais disponíveis no planeta diante da fúria do capitalismo global.<br />
O próprio capitalismo tomou a dianteira desse processo e resignificou, talvez de maneira irreversível, o próprio significado de sustentabilidade. Como não fosse ele o grande responsável pela catástrofe anunciada.</p>
<p>A demanda por desenvolvimento (agora sustentável) abriu novas frentes de exploração e especulação mercadológica, com base em créditos de carbono, carteiras de investimento “éticos” e uma série incontável de produtos, já anunciam um processo de commoditização da sustentabilidade.</p>
<p>Mas quando falamos de responsabilidade ambiental ou social, referimo-nos, em última análise, a uma necessidade de mudança de comportamento e atitude em relação a nós mesmos e ao planeta em que vivemos. Uma questão cultural, portanto.</p>
<p>Por outro lado, a questão cultural é inexplicavelmente deixada de lado. Não faz parte do vocabulário e das discussões estratégicas no campo da sustentabilidade.</p>
<p>Por que o mesmo tipo de convergência das agendas sociais não se efetivou do lado da cultura? Por que o apelo do marketing e do entretenimento sobrepõe-se às questões de relevância para o desenvolvimento cultural? Como buscar uma afinidade temática entre as questões ambientais e as responsabilidades social e cultural?</p>
<p>O capitalismo desenvolveu, aos poucos, seu próprio conceito de arte e cultura, utilizando elementos de valor simbólico como meio de construção de uma sociedade cada vez homogênea, destituída de valores e princípios éticos e desconectada de suas realidades e tradições culturais.</p>
<p>Isso se dá visivelmente na propaganda, na indústria cultural e mais recentemente no patrocínio empresarial. A arte como mero instrumento de valorização ou associação de marcas ou de plataformas político-ideológicas, como no caso do nazismo e até mesmo do american way of life.</p>
<p>Essas questões nos remetem a uma análise mais ampla e profunda do sistema, e de como a Responsabilidade Social e a pauta da sustentabilidade ocuparam o imaginário contemporâneo, sobretudo no campo empresarial.<br />
A discussão ambiental ganhou força no Rio Eco 92, encontro internacional centrado na sustentabilidade. Desde então inúmeras organizações locais e globais adotaram a questão como frente de ativismo social. Artistas e celebridades engajaram-se nessa luta, promovendo grandes concertos, mas sempre colocando o elemento cultural a serviço de outras causas, de certa forma instrumentalizando a arte e a cultura para causas “mais abrangentes”.</p>
<p>A cultura do espetáculo firmou-se como um dos elementos mais marcantes da sociedade de consumo, sobretudo a partir do pós-guerra nos Estados Unidos. E tornou-se uma arma para conquista de mercados e, sobretudo, para disseminação do jeito americano de viver. Todo o movimento da contracultura valeu-se desse expediente, com artistas engajados pela paz.</p>
<p>O marketing ganha força como o mais efetivo mecanismo de suporte do capitalismo, gerando demandas e necessidades de consumo a partir de ingredientes de valor simbólico. A arte figura como principal matéria prima a ser manipulada e resignificada, gerando simulacros de utopia, capazes de deslocar o ser humano para uma nova dimensão, onde se encontra indefeso, amedrontado e destituído de sua própria subjetividade. Torna-se presa fácil de seus instintos mais animalescos: sexo, competição, automóveis e artigos de luxo surgem como elementos capazes de “agregar valor” à sua marca pessoal.</p>
<p>Confirmar essa hipótese da commoditização da cultura e sua utilização como mero instrumento de marketing, de ação compensatória ou ato indulgente é tudo o que não desejamos.</p>
<p>Precisamos desenvolver mecanismos para inserir as dinâmicas culturais na ponta de lança de uma mundialização que respeite e celebre a diversidade e garanta os direitos e liberdades culturais de todos os cidadãos do mundo.</p>
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